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Publicado em 01/11 pelo(a) wiki repórter Carlos Bayma, Recife-PE

A caridade maldita

Cartoon - Foto: Eduardo dos Reis Evangelista

Lembremo-nos do filme Tropa de Elite. Nele, os usuários de drogas foram arrancados da confortável posição de dependentes químicos para a de financiadores do tráfico. Comparativamente, quando damos esmolas estamos, sem dúvida, contribuindo para a proliferação da criminalidade. E é fácil analisar este aspecto. Quando damos esmolas, particularmente à crianças, o que lhes estamos ensinando? Que elas não precisam estudar e, mais adiante, trabalhar para garantir o seu sustento. Basta fazer uma encenação nos sinais de trânsito que, condoídos, fazemos a nossa caridade vazia, dando início a um círculo vicioso difícil de ser quebrado. Mas ela vai crescer e virar um adolescente, figura que já não toleramos tanto. Estará mais forte, mais afoito e menos paciente, pois os hormônios inundarão os seus cérebros e músculos, conferindo-lhes uma falsa sensação de poder ilimitado.

Certamente, não apurará tanto quanto uma criança, mas suas necessidades físicas e psicológicas aumentaram. Quando negada a esmola, a revolta começa a se instalar de forma cumulativa, desembocando no primeiro delito mais sério: o assalto. Percebe, então, o jovem marginal que, quanto maior a sua agressividade e o risco assumido, maior a possibilidade de "lucro". A rua passará a não ser tão interessante, tal qual um empresário que quer ampliar seus negócios ao aumentar sua firma e sua área de atuação. Neste ponto, com raras exceções, não há mais volta. O marginal já está formado e tão entranhado no mundo do crime que, muitas vezes, só a morte o libertará.

Ao fazer, até com boas intenções, a caridade dos sinais, estamos, inadvertidamente, criando o meliante que invadirá as nossas casas, as nossas empresas e que nos sequestrará ou estuprará as nossas filhas, além de assassinar os nossos filhos. É isso mesmo! Aquele menininho meigo dos cruzamentos será o nosso algoz implacável e nada misericordioso. A caridade que pensamos ter feito, criou um monstro de proporções gigantescas contra nós mesmos.

Existem outros aspectos importantes sobre o assunto, que precisam ser analisados. O governo já o nosso sócio indesejável quando nos tira quase quatro meses de trabalho por ano em cobrança de impostos. Uma vez arrecadados, não são aplicados convenientemente - por razões diversas que variam da incompetência à corrupção - nos setores básicos da formação de uma sociedade: educação, saneamento básico, saúde, segurança e habitação. Então, e não sei por que razão, resolvemos "dar uma mãozinha" ao nosso inepto governo, e, tomados de uma culpa sem sentido, oferecemos esmolas.

Reparemos no absurdo que cometemos ao dar esmolas: ajudamos o nosso sócio relapso, que não cumpre o seu dever de casa, e financiamos aqueles que tomarão o que conquistamos, isso quando não subtraem do nosso convívio, parentes e amigos. Ainda pior: o nosso parceiro de sociedade forçada ainda acha pouco e cria programas sociais baseados na esmola, ou seja, dando o ganho material, o objetivo, e dispensando do pobre os meios honestos para consegui-lo.

Muitos de nós, que sustentamos nas costas a sociedade da qual fazemos parte, já fomos ao fundo do poço e demos a volta por cima. Não gostaríamos de passar por muitas coisas que já enfrentamos, mas elas foram fundamentais na nossa formação e causa de nossas atuais conquistas. Ir à bancarrota financeira e emocional pode ser muito bom quando não assumimos o papel de vítima e encaramos dificuldades como oportunidades, e não como punição divina, coisa de religião, uma outra praga.

Será que, evitando que pessoas cheguem verdadeiramente ao chão do buraco, não estaremos tirando delas a possibilidade de, uma vez na dificuldade, encontrarem caminhos de volta e se tornarem cidadãos produtivos e responsáveis? Será que, após impiedosamente espremidos pelos impostos cobrados, aprendêssemos a cobrar com maior autoridade e sem "reclamismos" a atuação decente e competente de nossos "empregados", os políticos, não seria mais adequado? Façam isso antes que eles inventem o imposto do mendigo, que seria a institucionalização da marginalidade e do ócio improdutivo.

Quando damos esmolas, ensinamos aos pedintes que eles são seres incapazes e inferiores, o que, nada realidade não o são. Quantas pessoas saíram da miséria e hoje são bem-sucedidas? Quantos potenciais médicos, empresários, advogados, administradores, técnicos e artistas têm nessa população marginalizável e, como conseqüência, marginalizada? É justo um trabalhador receber um salário-mínimo (ou seria mísero?) e um mendigo ganhar 400, 500 reais, ou até mais, sem produzir absolutamente nada de positivo? Perguntem quantos deles querem trabalhar com carteira assinada e constatem que a maioria não quer. Como o ser humano tem a tendência em se acomodar, a doação torna-se um meio de vida. E subsistirá aquele que for mais competente na arte da encenação.

Muitos de nós têm uma ou mais histórias acerca da ingratidão. Quantas vezes ajudamos pessoas supostamente necessitadas e tivemos como recompensa um belo pé-no-traseiro? É que, intimamente, elas se sentiram agredidas e ficaram revoltadas não exatamente com nós que as ajudamos, mas com elas mesmas em função da própria condição de derrotadas (e de derrotáveis). E um agravante sócio-cultural: a mendicância é veladamente estimulada pela maioria das religiões, particularmente a católica, que prega hipocritamente o culto à pobreza e à subjugação, mas, em seu núcleo, esbanja uma invejável saúde financeira e um dominador poder de Estado.

Aos "caridosos de plantão" que querem contribuir verdadeiramente, uma sugestão: não dêem esmolas. É um ato de covardia e severamente contraproducente. Acomoda e exime o governo, que já é financiado pelos seus impostos, de tomar as medidas básicas para abrandar a abismal má distribuição de renda existente.

Consequentemente, eximem também os pedintes da obrigação (obrigação mesmo!) de guiarem suas próprias vidas e não mais serem pesos-mortos na sociedade. Façam isso sem culpa: não dêem esmolas! Talvez vocês evitem que aquele garotinho choroso do sinal, que colocava uma florzinha nos pára-brisas de seus carros, um dia coloque um "três-oitão" nas suas têmporas e subtraia os frutos das suas conquistas, se não tirar as suas vidas. Só os que já passaram por isso - e não foram sumariamente executados - sabem intimamente ao que me refiro.