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São Paulo - a morte como um fato corriqueiro

Publicado em 15/01/2009 pelo(a) wiki repórter mauro carlos, São Paulo-SP

Está nos jornais de hoje. Um ônibus esmagou a cabeça da Márcia, uma massagista de 40 anos, que utilizava sua bicicleta como meio de transporte profissional, lá na avenida Paulista. O motorista disse que ouviu um ruído seco. Uma cabeça. Uma vida. Às vezes seca. Às vezes úmida.

Disse o motorista que nunca tinha se envolvido em um acidente antes. Deu azar, na verdade. Deve ser uma boa pessoa, prezar por sua família e seus amigos. Vai ter o ruído seco a martelar sua consciência pelo resto de seus dias.

O fato é que, andando de bicicleta em São Paulo, por muitas vezes senti a raiva de motoristas de ônibus, ansiosos por me ultrapassarem, e, para avisarem que eu sou um estorvo, tiram sempre uma fina, dão uma acelerada, ou freiam meio em cima de mim. "Olha amigo, você é um estorvo, e eu sou grandão, e estou aqui ganhando a vida, não tá vendo?"

Certa vez, atravessando a Paulista empurrando o carrinho de bebê da minha filha - e como lá o sinal fecha num toque de mágica - um deles avançou sobre mim e freou em cima; dava o mesmo aviso! Por causa da minha pequena lembro que naquela hora desejei humanamente ter lá uma arma! Também tenho raiva. Todos temos.

Os motoristas de carro também andam por aí, meio muito amargurados, dizemos hoje estressados, tirando finas de pedestres e de ciclistas. Dão lá seus avisos e em geral dão sorte. Os motoqueiros ralam também os pedestres e chutam os retrovisores; e sofrem as pressões dos ônibus e assim vai. É como a música do Chico Buarque, que ao final, "amava toda família", só que aqui é mesmo uma guerra!

Lá na Europa, pelo menos em grande parte dos países, quando tem um ciclista na rua, ele ocupa a pista, como se fosse aqui um carro. Quando um carro ou ônibus vai ultrapassá-lo, dá seta, muda de pista, ultrapassa, dá seta de novo, e depois volta para a pista. Lá o ciclista existe. É uma pessoa, tem vida. Não é invisível. Mas aí vão anos de cultura, de respeito, de história. É menos corrupção, mais investimento sério, mais educação.

E o município não investe quase nada, proporcionalmente, em meios de transportes coletivos. Nunca investiu. Nem o Estado. Quando vem o dinheiro, em geral é para túnel ou ponte. As ciclovias aqui são uma piada. De vez em quando vou passando de carro, e vejo desenhada uma bicicleta em uma pista, onde os carros passam a 80 km/h ou mais. Fico pensando que significa: ciclista, venha morrer sobre esse desenho!

E a vida aqui vale tão pouco, que impressionado com a história da Márcia que li no jornal, contei-a para um colega do escritório, que é, inclusive, muito sensível (sem brincadeiras), e ele, já deturpado pela vida neste balneário de loucos, disse assim: pois é, parece que o trânsito ficou parado umas duas horas, né?!

Que a morte da Márcia não seja em vão; que alguém possa refletir sobre a vida por alguns minutos, pelo menos antes de tirar uma fina do guidão de uma bicicleta, que espero sinceramente que não seja a minha.

Mauro Tavares Cerdeira

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COMENTÁRIOS

16/01/2009 - Irami - Umuarama-Pr
É assim pelo Brasil todo. As pessoas estão agindo como animais. Não há racionalidade, o que há é uma fria forma de convivência que assusta.

16/01/2009 - Irami - Umuarama-Pr
Caro colega, faço minhas as suas palavras. No entanto, devo dizer que onde há "homens", há estragos. Meu filho foi atropelado por um ciclista, que "tentou tirar uma fininha dele" qdo ia de livros nos braços para a escola. Ele atravessava a faixa de pedestres numa avenida larga, de mão dupla. Naquele momento, segundo testemunhas, só os dois circulavam no local. Havia muito espaço, sem congestionamentos, sem pressa, pois ambos estavam adiantados para suas respectivas atividades. Creio que a maioria dos seres humanos ainda não se descobriu nesta condição. São mal-educados, egoistas, desrespeitosos por natureza, infelizmente. No caso do meu filho (com 12 anos na época), o resultado foi oito meses de cadeira de rodas, duas pernas quebradas, ferros em ambas, depressão profunda e perda do ano escolar... Moramos em uma cidade de 100 mil habitantes e, pasmem os leitores, aqui tb acontecem coisas "do arco da velha". É preciso ver para crer.

16/01/2009 - Paul - São Paulo
Mauro, a cara de São Paulo, ou melhor, a cara do Brasil, é a do seu amigo de escritório, que diante da descrição do absurdo, nota apenas que o trânsito ficou congestionado umas duas horas. Este é um país pensado e feito para máquinas, não para gente.

15/01/2009 - SPOCK - São paulo
O trânsito paulistano e carioca não comportam ciclovias exclusivas por falta de espaço. O compartilhamento de bicicletas e veículos automotivos numa mesma faixa viária não se aplica no Brasil... seria assassinato em massa.
Uma solução que já apresentei à prefeitura: cilcovias exclusivas ou compartilhadas em ruas compatíveis da periferia até um terminal de ônibus, trem ou metrô.
No centro paulistano é inviável qualquer implantação cicloviário.

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