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Quando me tornei invisível

Publicado em 12/03/2008
wiki repórter
mirna_cavalcanti_de_albuquerque
Rio de Janeiro-RJ
 

Já não sei em que data estamos. Lá em casa não há calendários e na minha memória as datas estão todas misturadas. Me recordo daquelas folhinhas grandes, uns primores, ilustradas com imagens dos santos que colocávamos no lado da penteadeira. Já não há nada disso. Todas as coisas antigas foram desaparecendo. E sem que ninguém desse conta, eu me fui apagando também...

Primeiro me trocaram de quarto, pois a família cresceu. Depois me passaram para outro menor ainda com a companhia de minhas bisnetas. Agora ocupo um desvão, que está no pátio de trás. Prometeram trocar o vidro quebrado da janela, porém se esqueceram, e todas as noites por ali circula um ar gelado que aumenta minhas dores reumáticas. Mas tudo bem...

Desde há muito tempo tinha intenção de escrever, porém passava semanas procurando um lápis. E quando o encontrava, eu mesma voltava a esquecer onde o tinha posto. Na minha idade as coisas se perdem facilmente: claro, não é uma enfermidade delas, das coisas, porque estou segura de tê-las, porém sempre desaparecem.

Noutra tarde dei-me conta que minha voz também tinha desaparecido. Quando eu falo com meus netos ou com meus filhos não me respondem. Todos falam sem me olhar, como se eu não estivesse com eles, escutando atenta o que dizem. As vezes intervenho na conversação, segura de que o que vou lhes dizer não ocorrera a nenhum deles, e de que lhes vai ser de grande utilidade.

Porém não me ouvem, não me olham, não me respondem. Então cheia de tristeza me retiro para meu quarto e vou beber minha xícara de café. E faço assim, de propósito, para que compreendam que estou aborrecida, para que se dêem conta que me entristecem, venham me buscar e me peçam perdão. Porém, ninguém vem.

Quando meu genro ficou doente, pensei ter a oportunidade de ser-lhe útil. Levei-lhe um chá especial que eu mesma preparei. Coloquei-o na mesinha e me sentei a esperar que o tomasse, só que ele estava vendo televisão e nem um só movimento me indicou que se dera conta da minha presença. O chá pouco a pouco foi esfriando e junto com ele, meu coração.

Então, noutro dia disse-lhes que quando eu morresse todos iriam se arrepender. Meu neto menor disse:“Ainda estás viva vovó? “. Eles acharam tanta graça,que não pararam de rir. Três dias estive chorando no meu quarto, até que numa manhã entrou um dos rapazes para retirar umas rodas velhas e sequer um bom dia me deu.

Foi aí que me convenci de que sou invisível. Parei no meio da sala para ver, se me tornando um estorvo me olhavam. Porém minha filha seguiu varrendo sem me tocar, os meninos correram em minha volta, de um lado para o outro, sem tropeçar em mim.

Um dia, os meninos se agitaram e vieram me dizer que no dia seguinte todos nós iríamos passar um dia no campo. Fiquei muito contente. Fazia tanto tempo que não saía e mais ainda ia ao campo!

No sábado fui a primeira a me levantar. Quis arrumar as coisas com calma. Nós os velhos tardamos muito em fazer qualquer coisa. Assim, adiantei meu tempo para não atrasá-los. Rápido entravam e saíam da casa correndo e levavam as bolsas e brinquedos para o carro.

Eu já estava pronta e muito alegre. Permaneci no saguão a esperá-los. Quando me dei conta, eles já tinham partido e o auto desapareceu envolto em algazarra. Compreendi que eu não estava convidada. Talvez porque não coubesse no carro... Quem sabe?

Ou quem sabe, porque meus passos tão lentos impediriam que todos os demais caminhassem a seu gosto pelo bosque. Senti claro como meu coração se encolheu e a minha face ficou tremendo como quando a gente tem que engolir a vontade de chorar.

Eu até entendo. Eles vivem o mundo deles. Riem, gritam, sonham, choram, se abraçam, se beijam. E eu, já nem sinto mais o gosto de um beijo. Antes beijava os pequeninos, era um prazer enorme tê-los em meus braços,como se fossem meus.

Sentia sua pele tenrinha e sua respiração doce bem perto de mim. A vida nova me produzia um alento e até me dava vontade de cantar canções que nunca acreditara me lembrar. Porém um dia minha neta Laura, que acabava de ter um bebê disse que não era bom que os anciãos beijassem aos bebês, por questões de saúde.

Desde então já não me aproximo deles, não quero lhes passar algo mal por minhas imprudências. Tenho tanto medo de contagiá-los ! Eu os bendigo a todos, todos os dias e lhes perdôo, porque..."

“Que culpa têm eles de que eu me tenha tornado i n v i s í v e l ?”

Fonte
http://www.kantinhodamapa.com/idosos/invisivel.htm

Texto Original - El dia que me volvi invisible, de Silvia Castillejon Peral
Adaptado e produzido pela Helsan Produções
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COMENTÁRIOS

13/03/2008 - Mirna Cavalcanti de Albuquerque - Rio de Janeiro
O senhor Tempo não para , Cal... e passa por demais rápido . Depois dos 15 anos , para mim tem 'voado' ! Não é por menos que os latinos costumavam dizer:"tempus fugit". Realmente , ele 'foge' e temos que tentar recuperá-lo 'intrínsecamente' , pois , na realidade é impossível fazê-lo .Viver intensamente cada instante - por mais cotidiano que seja - faz com que sintamos a vida com a densidade necessária para que possamos olhar , a cada ano que passa e dizer:"este ano que passou valeu a pena"..."o que se inicia , deverá ser melhor ainda" ! SEMPRE HÁ TEMPO PARA SER FELIZ !ps - SENTES SAUDADES DAQUI? Eu já me acostumei , fiz amizades , massinto , sim , saudades de quando era criança aí em Porto Alegre !

13/03/2008 - Cal 55 - Porto Alegre
Em tempo; perdoe-me Gaúcha.

13/03/2008 - cal55 - Porto Alegre
O ciclo da vida poderia ser diferente...mas não o é.
Nos tornamos invisíveis se deixar-mos o tempo passar.
Para parar o tempo permanecendo jovens...nos integramos, escrevemos, dançamos e...mesmo com a voz rouca ou pouca força...amamos.
Mirna! Nós trocamos de estado eu carioca estou no Sul e vc Gaúca no Sudeste...nós nunca nos tornaremos invisíveis pois...estamos sempre fazendo trocas. abraços. Excelente texto.

13/03/2008 - M.Menezes - Niterói/RJ
Li ontem que um lar de idosos aqui no Rio está precisando que 'adotem um velhinho' ou terá que fechar . Pq. o governo não dá , entre tantas bolsas inúteis , algo para os velhinhos também?É muito triste chegar ao fim da vida , ser abandonado pela família e ainda passar tantas necessidades.

12/03/2008 - MIRNA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE - RIO DE JANEIRO
MÔLUSCO , MEU AMIGO ( PERMITA-ME CHAMAR-TE ASSIM , MAS É ASSIM QUE SINTO A TUA PESSOA)... ESSA ESTÓRIA É MUITO VERDADEIRA . A MAIORIA DAS FAMÍLIAS , AO TEREM UM IDOSO EM CASA,O IGNORAM COMPLETAMNETE. EM VERDADE , DEVERIAM TRATÁ-LO COM CARINHO ,CONSIDERAÇÃO , AMOR...DEVERIAM AGRADECER A DEUS PODEREM TER JUNTO DE SI , A VIVÊNCIA DE UM SER QUERIDO,QUE SÓ ACRESCENTA À VIDA DOS MAIS JOVENS ...É TRISTE, MÔLUSCO , SABER QUE EXISTEM VELHINOS SEREM MALTRATADOS OU COLOCADOS EM "DEPÓSITOS DE GENTE"...CREIO SIM , AMIGO , QUE HÁ MUITOS CULPADOS :TODOS OS QUE ENUMERASTE . OS PAIS , POR QUEREREM DAR AOS FILHOS MAIS DO QUE TIVERAM ,MUITAS VEZES SE PRIVANDO DE COISAS QUE NECESSITAM . AMIGO , O QUE FALTA , ACIMA DE TUDO É AMOR NO CORAÇÃO DAS PESSOAS ...TUA SENSIBILIDADE JÉ INDICOU-TE AS CAUSAS. PARA TI TAMBÉM , QUE SEJAS FELIZ JUNTO AOS TEUS! JAMAIS SERÁS 'INVISÍVEL' !

12/03/2008 - MÔLUSCO - DF BRASILHA
Doutora Mirna. Li na integra enquanto aguardava nos pendentes,fico pensando,divagando,seria na verdade seres humanos,teriamos preparados mal nossos filhos?? E nossos netos?? Apenas seguem a rotina de seus pais..Na verdade somos os unicos culpados sim,devemos sempre estar atentos a familia,procurar esquecer TV,Internet,passeios infrutiferos e atentar mais a filhos e netos. Como sou manteiga derretida acabei por derrramar lagrimas,no entanto fiquei feliz e contente por nos trzer algo para a reflexaõ do nosso dia,a,dia,naõ quero,naõ posso,naõ devo-me tornar um invisivel,porisso muito obrigado,SEJE FELIZ;

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