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Hipátia de Alexandria

Publicado em 02/06/2009
wiki repórter
Jony Santellano
São José dos Campos-SP
 

A matemática e filósofa Hipátia de Alexandria, retratada a partir do renascimento como uma bela jovem com traços nobres e altivos. - Foto: Divulgação / Internet

Hipátia nasceu em Alexandria por volta do ano 370 DC. Aperfeiçoou os seus estudos em Atenas e, de volta para sua cidade natal, tornou-se professora de matemática e filosofia. Era considerada uma palestrante carismática e suas aulas foram muito concorridas. Escreveu comentários à obras clássicas de matemáticos gregos. Manteve-se solteira e declarava-se "casada com a verdade". O conjunto da sua obra é tido como de relevo, e a sua morte, ocorrida em 415, trágica. Foi o último dos grandes nomes intelectuais que trabalhou na Biblioteca de Alexandria. Tornou-se a primeira mulher que a história registra como dedicada à matemática.

 Hipátia de Alexandria nasceu em um lar de sólida tradição intelectual. Seu pai Têon, conhecido matemático, filósofo e astrônomo, escreveu em 11 livros um comentário sobre o célebre tratado "Almagesto" de Ptolomeu, e realizou uma revisão dos "Elementos" de Euclides, de onde são baseadas as edições mais modernas da obra do conhecido matemático grego.

As famílias fundadas sobre este lastro intelectual e de projeção social da Alexandria da sua época costumavam ainda cultuar o ideal grego da "mente sã em um corpo sadio" ("men sana in corpore sano"). Com esse lema na cabeça, o pai de Hipátia não mediu esforços para torná-la o "ser humano ideal", educando-a em matemática e filosofia e dirigindo-a em um programa de treinamento físico para lhe assegurar um corpo saudável. Todo esse esforço foi compensador.

Quando Hipácia passou a ser retratada a partir do renascimento, o seu rosto ganhou belos traços com um perfil nobre e altivo. Esses traços capturam de uma certa maneira uma projeção positiva que é feita da sua vida e obra, e um certo sentimento de reverência com respeito ao seu fim trágico.

No campo da matemática, Hipátia escreveu comentários sobre a "Aritmética" de Diofanto e as "Secções cônicas" de Apolônio. Ela era interessada particularmente no estudo dos planos formados nas intersecções de um cone e nas curvas decorrentes dessas intersecções, as chamas secções cônicas (hipérboles, parábolas e elipses). A maior parte da obra escrita por Hipátia foi perdida, mas no século XV foi encontrada na Biblioteca do Vaticano uma cópia do seu comentário sobre a obra do matemático grego Diofanto.

Devido a sua ambientação cultural e a influência da educação recebida do seu pai, é certo que Hipátia conheceu e estudou a obra do astrônomo Ptolomeu. A partir das cartas escritas por Sirenius, um dos seus alunos, sabemos hoje que Hipátia gastou bastante tempo da sua atividade cultural desenvolvendo astrolábios, instrumentos mecânicos utilizados para cálculos astronômicos e localização de astros no céu.

Na filosofia, Hipátia abraçou a causa da escola neoplatônica (ou "plotinismo"), que na sua época em Alexandria atuava em oposição aos grupos cristãos, mais fervoroso e atuante. Ao longo do tempo, o cristianismo, por assim dizer, dominou e até mesmo assimilou o que lhe interessava do neoplatonismo, na época considerada uma filosofia pagã; isto aconteceu não somente em Alexandria como em todo o mundo romano.

Disputas religiosas e conflitos entre lideranças de Alexandria, apoiados por correntes religiosas, atraíram a ira de devotos inflamados cristãos contra a "herege" Hipátia. A matemática e filósofa era considerada a face visível do neoplatonismo na cidade.
Existem várias versões sobre o seu trágico final, todas coerentes entre si, sendo a mais difundida é a variante registrada por Edward Gibbon, no seu conhecido livro "O declínio e a queda do império romano". Nesta versão, em uma manhã da quaresma de 415, Hipátia foi atacada na rua, quando voltava para sua casa em sua carruagem. A multidão enfurecida arrancou-lhe os cabelos e a roupa, esfolou a sua pele com carapaças de ostras, arrancaram-lhe os seus braços e pernas, e queimaram o que restou do seu corpo. Atitude de um verdadeiro furor bárbaro.

O impacto dramático da morte de Hipátia fez com que o ano do seu ocorrido fosse tomado por alguns historiadores como o marco do fim do período antigo da matemática grega. Para outros, este fecho só ocorrerá mais de cem anos depois, com a morte de Boécio (425), também de uma maneira trágica. Entretanto, a morte de Hipátia de um certo ponto de vista sinaliza o fim de Alexandria como importante centro de estudos da matemática grega antiga.

A vida, a obra e a morte trágica de Hipátia despertaram a atenção de filósofos, matemáticos, comentadores e historiadores que a sucederam. Damáscio, um dos seus alunos, que mais tarde tornou-se um crítico severo do seu trabalho, escreveu que ela era "por natureza, mais refinada e talentosa que o seu pai". Intelectuais de Voltaire a Carl Sagan, passando por Bertrand Russel dedicaram-lhe comentários de apreço e reconhecimento. Sua vida foi reconstituída em um romance de Charles Kingsley ("Hypatia, or new foes an old face". New York: E. P. Dutton, 1907), e contada por Maria Dzielsk ("Hypatia of Alexandria", trad. F. Lyra, Cambridge, M. A.: Harvard Press, 1995).

Recentemente, o conhecido diretor espanhol de cinema Alejandro Amenabar ("Mar adentro", 2004) dedicou um filme ("Ágora") a vida de Hipátia, que é representada pela bela e talentosa atriz Rachel Weiz. No filme, Ágora mostrado no último Festival de Cannes, fora da competição, não são apresentados os detalhes do final trágico de Hipátia descrito por E. Gibbon. A heroína é retratada como uma "mulher agnóstica e letrada, destruída por fanáticos". Amebar declarou que o seu filme pode ser interpretado como uma espécie de reflexão sobre os fundamentalismos religiosos de todos os tempos.


FONTES DE PESQUISA:


1- Hypatia. In: MOORE, Peter. Ciência: Pequeno livro das grandes idéias. São Paulo: Ciranda Cultural Editora, 2008.

2- Uma bela mulher, uma biblioteca e o fim da civilização. In: MLODINOW, Leonard. A janela de Euclides: A história da geometria das linhas paralelas ao hiperepaço. São Paulo: Geração Editorial, 2005. Cap. 6.

3- EVES, Howard. Introdução à história da matemática. Campinas, SP: Editora UNICAMP, 2004.

4- BOYER, Carl B. História da matemática. São Paulo: Edgard Blücher, 1974.

5- STÖRIG, Hans Joachim. História geral da filosofia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

6- HIRSCHBERGER, Johannes. História da filosofia na antiguidade. São Paulo: Herder, 1969.

7- RUSSEL, Bertrand. História da filosofia ocidental. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1969. Vol. I.

8- KAWANO, Carmen. No século 4, Hipátia foi pioneira no estudo da matemática e filosofia. Revista Galileu, Editora Globo. (Disponível em: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG80822-7899-198,00-CIENCIA+DE+SAIAS.html).

9- Jornal O Globo, 20/maio/2009. ("História em Cannes: Rachel Weiz entra na pele de Hipácia de Alexandria", p. 30).



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COMENTÁRIOS

06/03/2010 - Maria Eduarda - João Pessoa
Gosteii muito desse site!

09/07/2009 - Joana Paula - Rio de Janeiro
Essa mulher foi mesmo uma guerreira, lutando sempre por seus direitos!

02/06/2009 - Mirna Cavalcanti de Albuquerque - RJ
Jony, bom dia!
Hipátia foi, realmente, única em sua época. Em tempo que às mulheres era ’proibido’ pensar, a Matemática e a Filosofia eram as ciências que mais apreciava. É incrível constatar que poucas são as pessoas que dela ouviram falar. Esta tua pesquisa veio a prpósito. Obrigada pelo feito.

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